sexta-feira, 13 de março de 2009

MAIOR BARATO


Apesar de confessar sua incapacidade em lidar com o assunto e os erros cometidos sucessivamente, nas últimas décadas, a ONU quer tentar impor uma política ainda mais repressiva no que diz respeito ao uso de drogas em todo o mundo. Segundo documento aprovado ontem na Comissão de Narcóticos da instituição, prevê a minimização ou eliminação da disponibilidade e do uso de drogas até 2019.
Durante o debate notou-se que interesses bastante distintos cercam o problema: de um lado há os países-membros da União Européia, que defendem uma política de “redução de danos” para o problema, um viés que contempla o caráter social e de saúde pública da questão. Do outro lado, os Estados Unidos, que defendem um enfoque mais repressivo no combate à produção e distribuição de drogas em todo o mundo, com o apoio de crescente aparato militar. Há ainda que lembrar que o cultivo de espécies vegetais de onde se extraem substâncias de efeito alucinógeno – tais como a coca, a cannabis e a papoula – são, por vezes, a única fonte de renda para populações em estado de miséria.

Pausa para o café: não estou usando este argumento como justificativa para o cultivo destas plantas. Apenas estou dizendo que o problema social envolvido não se refere apenas ao consumo de drogas, mas também à necessidade de oferecer a esses agricultores uma alternativa de subsistência. Muitos se envolvem com o cultivo ilegal por não terem outra saída. Voltemos...

Outro aspecto a ser considerado é que não se pode culpar somente os países pobres pelo aumento da quantidade de narcóticos disponível no mercado. Afinal, a tecnologia disponível para a fabricação de drogas sintéticas – onde se destaca o ecstasy – é de responsabilidade dos países desenvolvidos, sobretudo a Europa. É de lá que as bolinhas coloridas saem. Mas até agora ainda não ouvimos os EUA reclamando de tal fato nem enviando tropas para combater o tráfico no Velho Continente. Diga-se de passagem, uma das principais razões para a ocupação do Afeganistão é tentar desmantelar a rede de cultivo e distribuição de ópio, que se encontra nas mãos dos Talibãs.
O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso declarou há pouco tempo que é preciso repensar a política de combate ao uso de entorpecentes, dando à mesma um caráter mais humanista. Neste sentido, os europeus tentaram argumentar contra a aprovação do texto posto que o mesmo apresenta metas pouco realistas. Mas os EUA foram firmes em negar a possibilidade de aceitar uma política de “redução de danos”. Segundo o representante estadunidense, o termo poderia significar, no futuro, um atalho para a legalização de substâncias atualmente proibidas.

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