segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

CRISE ANTIGA


Os dados revelados pelo Censo da Educação Superior 2007 realizado pelo INEP não são novidade para quem é da área, mas talvez sejam de compreensão não imediata para quem vê de fora. Os números finais do estudo apontam para uma queda, pelo segundo ano consecutivo, no contingente de universitários formados em cursos voltados a disciplinas do magistério. Dentre eles, destacam-se negativamente Letras (-10%), Geografia (-9%) e Química (-7%). Por outro lado, a publicação também revela que há cerca de 300.000 profissionais dando aulas em áreas diferentes das quais se formaram, em todo o Brasil.
Parte do problema pode ser explicada pela sistemática falta de uma real política pública de educação para o nosso país. O problema, crônico e estrutural, abarca todos os segmentos do setor, envolve todas as instâncias e estende seus tentáculos a toda a sociedade. É um nefasto círculo vicioso que atinge desde as crianças da mais tenra idade (principalmente as que NÃO VÃO para a escola) até os alunos dedicados aos estudos de pós-doutorado.
Voltando aos resultados do censo, parece óbvio que os cursos de licenciatura atraem um número cada vez menor de interessados por dois motivos básicos: a desvalorização da carreira e as más condições da infraestrutura para o trabalho. O primeiro aspecto pode ser explicado sobretudo pela pífia remuneração dos profissionais e pela desvalorização de sua imagem. O professor é, hoje em dia, motivo fácil de piadas e alvo constante de violências, o que só contribui para diminuir ainda mais sua auto-estima. As campanhas salariais da categoria são verdadeiro tormento, não só porque a classe é desunida, mas também pelo descaso do empregador, privado ou público.
O segundo aspecto descrito diz respeito às (péssimas) condições físicas de trabalho. Não bastasse o abandono das escolas, goteiras, carteiras quebradas, teto caindo, roubo de equipamentos e má qualidade da merenda (o que afeta o desempenho do aluno), ainda há o risco das balas perdidas, nas escolas próximas a favelas, nos grandes centros urbanos. Nas grandes cidades, a deficiência no número de profissionais é mais facilmente vista nas unidades em áreas de risco.
É lógico que a imagem de um profissional com baixa auto-estima e salário menor ainda não é nada sedutora. Portanto, não causa espécie o desinteresse dos vestibulandos pelas licenciaturas. E, para suprir tais deficiências, o que faz o poder público? Piora ainda mais a situação, ao permitir o uso de mão-de-obra não qualificada no setor. Infelizmente cresce o contingente de “professores leigos” e o subaproveitamento de profissionais da área. Assim, o professor de História, por exemplo, é convidado a assumir a cadeira de Sociologia na escola porque não há profissional habilitado. E o coitado, com o salário lá embaixo, vê no convite a oportunidade de melhorar sua renda, e aceita. Até porque, se não aceitar, sofrerá sanções por isso. Pior ainda é o caso dos leigos, que não tiveram preparo técnico algum para assumir uma sala de aula, mas mesmo assim o fazem, com as bênçãos do Estado.
E o que dizer de campanhas do tipo “amigos da escola”? O incentivo à sociedade para participar da rotina educacional de sua cidade é louvável, mas não no sentido de que as pessoas devam assumir funções educacionais. Que um cidadão vá aos finais de semana pintar uma parede, consertar um cano ou trocar lâmpadas, tudo bem. Mas desenvolver práticas esportivas e organizar grupos de estudo, NÃO! Por falar nisso, a saúde é outro setor que tem deficiências. Por favor, me avisem quando começar o “amigos do hospital”. Quero ir lá e realizar uma neurocirurgia...

2 comentários:

Bel disse...

Adorei sua colocação sobre a postura educacional que não deve ser tomada pelo cidadão comum. Mas isso é tãaaaaao difícil de ser entendido pelos responsáveis pelas políticas públicas da educação...

Marcelão disse...

Acho que os formuladores das políticas públicas de educação não entendem quase nada, e deveriam voltar pra escola. De preferência numa escola pública, na periferia do país, e no turno da noite! hehehehe